quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A fé, se não tiver obras, por si só está morta. Tiago 2:17



A fé, se não tiver obras, por si só está morta. Tiago 2:17

Caro irmão. Analisemos primeiramente os dois versos abaixo:


“Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei”.
Romanos 3:28
X
“Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente”.
Tiago 2:24

            Com esse estudo pretendo esclarecer uma das grandes dúvidas entre um amplo número de líderes religiosos de nossos dias. Poucos se atrevem a abordar em um mesmo estudo esses dois versículos juntos, temendo não poderem responder a contento a seus discípulos, por parecerem contraditórios. Aliás, para quem ainda não foi clarificado por Deus para a compreensão plena de sua graça, a simples apresentação destes dois versículos juntos, isolados de seu contexto, expressa a maior e mais explícita contradição bíblica que se conhece.
Em Romanos 3:28 o apóstolo Paulo, após fazer grande defesa em favor da doutrina da salvação pela graça, baseada na fé, não de obras, conclui sua defesa com o seguinte dizer: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.” Já Tiago, no capítulo 2 de sua carta, semelhantemente ao apóstolo Paulo, faz uma extraordinária defesa em favor da necessidade de obras para a justificação da humanidade, chega a afirmar no versículo 17 que “a fé, se não tiver obras, por si só está morta”, e contradiz Paulo no versículo 24 ao declarar: “Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente”.
Talvez você fique surpreso. Talvez diga – Nunca ninguém havia me mostrado essa “incoerência” entre dois textos bíblicos. Qual a explicação para isso? Será que a bíblia realmente se contradiz, afinal, não são apenas os dois versículos, mas os dois capítulos inteiros (Romanos 3 e Tiago 2)?
Você já analisou esses dois capítulos da Bíblia que parecem contraditórios? Veja que existe um contrassenso entre os textos em questão até na escolha da ilustração que reforçaria o ensinamento de cada um destes homens escolhidos por Deus para nos trazer a inspiração divina. Tanto Paulo como Tiago usam o pai Abraão para reforçar suas posições quanto à doutrina da justificação. Tiago escreve: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus” (Tg. 2:21-23). Já Paulo, no capítulo 4 de Romanos cita o mesmo Abraão como pai de todos os que têm fé, independente das obras: “Que, pois, diremos ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne? Porque, se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante de Deus. Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça... Como, pois, lhe foi atribuída? Estando ele já circuncidado ou ainda incircunciso? Não no regime da circuncisão, e sim quando incircunciso. E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para vir a ser o pai de todos os que crêem, embora não circuncidados, a fim de que lhes fosse imputada a justiça” (Rm 4:1-3, 10-11).
Os dois citam Abraão e a afirmação de Deus “Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado para justiça”, referenciando Genesis 15:6, quando Deus promete descendência a Abraão. A análise simplória dos dois argumentos favoreceria a Paulo, afinal de contas Deus imputou justiça a Abraão antes de ter um filho para oferecer em sacrifício, antes de qualquer coisa, antes mesmo da circuncisão, antes de receber qualquer promessa, Deus prometeu e Abraão creu e isso (a sua crença, sua fé nas promessas de Deus) lhe foi imputado para justiça. Então quer dizer que Tiago estava equivocado ao teorizar sobre justificação? Obviamente que não, devemos também lembrar que “toda a escritura é inspirada por Deus” (IITm 3:16), e Deus não comete equívocos.
Para melhor aproveitamento de nossa análise sobre o texto de Tiago, convém que conheçamos melhor o autor desta carta e o momento específico em que ela foi escrita.

Quem é Tiago?

            O nome Tiago era muito comum entre os judeus. Há pelo menos 3 homens no novo testamento que são chamados de Tiago e possíveis autores desta carta.
Temos dois discípulos chamados Tiago, um irmão de João e outro filho de Alfeu (Lc6:13-15), também temos um discípulo Judas (não o traidor) cujo pai chamava-se Tiago (Lc 6:16), temos um Tiago chamado “menor” (Mc 15:40) que possivelmente era um dos dois discípulos e temos o Tiago, que o apóstolo Paulo chamou de “irmão do Senhor”, em Gl 1.19: “E não falei com nenhum outro apóstolo, a não ser com Tiago, irmão do Senhor”; Jesus tinha um irmão com esse nome, em Mt 13.55 temos o nome dos irmãos de Jesus, filhos de Maria: “Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas?”.
Este Tiago irmão de Jesus se tornou notório entre os discípulos após a ressurreição do Senhor e a tradição atribui a ele a autoria desta carta.

Quando foi escrita a carta de Tiago?

            A carta não fornece indícios, mas usualmente propõe-se que esta tenha sido uma das primeiras, se não a primeira, das escrituras do novo testamento.
Isso porque, se Tiago filho de Zebedeu é seu autor, ele foi martirizado por volta do ano 44 dC (At 12:1,2). Ou se o autor é Tiago irmão de Jesus (o mais provável), o historiador judeu Josefo, escreve que Tiago foi apedrejado até a morte num tempo após a morte de Festo, procurador romano, e antes da chegada de Albino, seu sucessor (62 dC).
Seja quem for o autor da carta de Tiago, escrita pelo Tiago filho de Zebedeu ou pelo Tiago irmão de Jesus, o que se percebe é que ela foi escrita num período em que o evangelho da salvação pela graça, baseada na fé, não de obras, ainda estava em processo de revelação, no tempo em que nomeamos como “período de transição”.

Período de Transição

            Para entender o conceito de transição que desejamos explicitar, vale entender o significado do termo “vacatio legis”, de origem latina, aplicado ao direito.
Toda lei (sentido lato) é criada, promulgada, publicada, e entra em vigor num prazo estabelecido pelo legislador, pós-publicação, respeitando as adaptações necessárias e sua ampla divulgação. Esse conceito, embora bastante óbvio, tem origem em princípios bíblicos. Sabemos que a lei de Deus é imutável e eterna (Sl 111:7-8), porém antes de sua “publicação”, ou seja, antes de Moisés o pecado não é levado em conta quando não há lei (Rm 5:13). Assim também, pela mesma palavra de Deus sabemos que, “é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados” (Hb 10:4), no entanto, Abel e outros tantos no V. T. obtiveram por meio de sacrifícios “o testemunho de serem justos” (Hb 11:4).
O que vemos é que o Deus eterno e imutável tratou de forma diferente com a humanidade durante os tempos, de acordo com aquilo que da sua palavra já havia sido revelado. Percebemos também que as mudanças não ocorriam abruptamente a partir da divulgação de uma verdade, as verdades eram gradativamente reveladas e tomando espaço daquilo que está prestes a desaparecer (Hb 8:13, IICo 3:10-11).
A este período em que uma verdade está sendo divulgada e que ainda subsiste outra que está prestes a desaparecer é que chamamos de “período de transição”. Assim como as leis humanas passam a valer apenas após sua ampla divulgação e comumente requerem um período de adaptação em que por vezes duas regras podem estar em vigor simultaneamente, também ocorre na bíblia períodos em que uma verdade já chegou para alguns, enquanto que para outros essa verdade ainda está oculta.
Um grande exemplo deste conceito é a transição do que chamamos de “dispensação da lei” para a “dispensação da graça” – a salvação baseada na fé, não de obras – divulgada pelo apostolo Paulo em suas cartas. O evangelho da graça de Deus está firmado no sacrifício de Cristo, o cordeiro de Deus (Jo 1:29), mediante a fé e não de obras para que ninguém se glorie (Ef 2:8-9), salvação esta consumada na cruz de Cristo. Entretanto vemos que mesmo após a morte de nosso Senhor Jesus Cristo para nossa redenção, por algum período ainda a remissão de pecados esteve baseada nas obras da lei. Atos 2:38 evidencia que a remissão de pecados estava condicionada a ritos da lei: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados”. A palavra da cruz, por um período considerável do livro de Atos, foi pregada entre os apóstolos como um ato de condenação aos judeus e não de salvação, em Atos 2:36 Pedro afirma que “este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”, condenando os judeus pela crucificação do Senhor, semelhantemente assim é feito em Atos 4:10 e 5:30.
A remissão de pecados mediante exclusivamente a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, demonstrando a incapacidade da lei em salvar, é anunciada pela primeira vez explicitamente só em Atos 13:38-39, quando Paulo afirma: “Tomai, pois, irmãos, conhecimento de que se vos anuncia remissão de pecados por intermédio deste; , por meio dele, todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei de Moisés”.
Por isso consideramos que o livro de Atos possui um longo período de transição da Lei para a graça. Observamos Apolo (At 18:25), instruído no caminho do Senhor, que ensinava com precisão a respeito de Jesus, mas conhecia apenas o Batismo de João, Tiago que em Atos 20:21 aponta para dezenas de milhares entre os judeus que creram, e todos zelosos da lei, por causa destes Paulo teve que tomar voto, rapar a cabeça e cumprir ritos da lei (Gl 2:18). É possível que neste momento a carta de Tiago já havia sido escrita, ou na melhor das hipóteses, estava por ser escrita nestes dias, o que vem a esclarecer a não inclusão do evangelho da graça em sua explanação. 

Estaria Tiago equivocado?

            Ao chegar neste ponto o leitor poderia pensar que Tiago estava equivocado em suas afirmações, conseqüentemente nada do que ele diz serve para nós nos dias de hoje e sua carta poderia ser arrancada da bíblia que não faria diferença. Equivocados estaríamos nós se assim pensássemos. A palavra nos diz que “Toda a escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino” (II Tm 3:16), nada deve ser desprezado de forma alguma, é Deus a nos orientar.
            Neste caso como aplicar Tiago 2 para nós nos dias de hoje, sabendo que a nossa justificação está na fé no sangue de Cristo derramado por nós?
            O fato de nossa justificação não vir por meio da lei não significa que a lei não revela o caráter de Deus e seu desejo para nós. O apóstolo Paulo afirma que “a Lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom”, assim como Tiago que recomenda a observância da lei, “fazeis bem” diz ele (Tg 2:8).
A lei tem sua razão de ser e deve ser observada segundo este conceito: pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3:20), “Foi adicionada por causa das transgressões” (Gl 3:19), “nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé” (Gl 3:24). Por isso a palavra nos adverte em I Timóteo 1:8: “Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo legítimo”, e, utilizar a lei de modo legítimo é usá-la para compreender a vontade e santidade de Deus, para crescermos cada dia mais à Sua semelhança, e não utilizando-se dela para conquistar a salvação, desprezando assim o sacrifício vicário de Cristo.

Como responder ao argumento de Tiago?

            E quando alguém que, por falta de compreensão das escrituras, por crer que a salvação é também pelas obras e não por fé somente, usar Tiago 2:18 para questionar a suposta “fraqueza” de minha fé? (isso já aconteceu comigo). Como responder?
Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras,
 e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé
Tg 2:18
Observe o teor desta afirmação: “mostra-me essa tua fé sem as obras”. De fato Tiago tem plena razão quando diz: “a fé sem obras é fé morta”, ou seja, inoperante.
A questão é que a nossa fé em Jesus Cristo não é sem obras. Muito pelo contrário, ela é apoiada na maior obra de redenção já realizada, planejada e executada pelo próprio Deus. É isso, a nossa fé tem obra sim, só que não executada por nós (como se pudéssemos fazer alguma coisa para nossa salvação), a nossa obra foi realizada pelo próprio Deus quando enviou o seu próprio filho para entregar sua vida, derramando seu sangue naquela cruz para remissão de nossos pecados.
Uma boa maneira de responder ao questionamento de Tiago 2:18 é devolvendo a pergunta ao nosso interlocutor da seguinte forma:
Então mostra-me primeiro as obras que tens realizado para sua salvação,
que eu lhe mostrarei a minha fé
É provável que a pessoa defenda-se com o argumento de que faz o bem, não falta aos cultos, é batizado, é fiel no dízimo etc.. Mas afinal, qual destas obras salva? Onde está a obra que justifica? Sabemos que, por mais que procure, nosso interlocutor, não achará obra que possa lhe salvar. Vemos dessa forma Romanos 3:20 agindo na vida desta pessoa (pela lei vem o pleno conhecimento do pecado). Ele entenderá então o versículo que diz: “o mandamento que me fora para vida, verifiquei que este mesmo se me tornou para morte” (Rm 7:10).

Será então uma boa oportunidade para mostrar a obra de Cristo para nosso questionador, utilizando-se da lei de modo legítimo (I Tm 1:8) e fazendo valer Galatas 3:24 (a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé). A lei não salva, mas ela é o caminho para nos conscientizar de nossa condição de pecadores e nos conduzir à obra de Cristo, a única obra eficaz, plena e aceitável diante de Deus para nossa salvação. Graças a Deus pelo seu dom inefável (2 Coríntios 9:15).

Rogerio da Silva

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